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Todos os gatos são cinza. ( Do The Cure ao Faith no More )

  • July 16, 2026
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Gilmar Rojas Dias
Super User
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Me convenci. Continuo do show.  Tenho uma advertência para os incautos, apesar de ser uma continuação do show, que particularmente relendo ficou mais “bonitinho” que o esperado, este é mais cru e possivelmente eu tenha que continuar, ou fazer uns SPIN OFFs, hehehe, segue mais uma obra constituída da realidade. aconselho a ler ouvindo: ( ou não, heheh … tem outras no caminho, como sempre )

 

 

A atmosfera do quarto na Avenida Osvaldo Aranha nunca decaiu para o caos barulhento.

O tempo apenas mudou de frequência, desacelerando até parecer curvar-se ao nosso redor.

Aquele concerto histórico no Gigantinho havia transformado tudo, e a nossa rotina passou a ser ditada pelos excessos e pela febre psicodélica e densa do vinil duplo de Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, que estava sempre no três-em-um ao longo daquele ano de 1987.

As noites longas de inverno em Porto Alegre traziam o efeito expandido, sensual e profundamente lúcido do que quer que partilhássemos sob a língua — com os acordes hipnóticos de If Only Tonight We Could Sleep ecoando baixinho nas paredes.

 

 

O Casarão da Osvaldo Aranha, semanas antes, tinha sido o cenário cinzento onde nossos caminhos se cruzaram com os dela pela primeira vez.

Aquela pista sufocada em fumaça parecia a personificação viva de All cats are grey, um limbo onde as identidades se dissolviam e todos os corpos eram apenas vultos na penumbra.

Luzes opacas cortavam o breu, criando silhuetas fixas ao invés de movimento, e foi nesse cenário de sombras que ela surgiu.

O magnetismo dela funcionava quase como gravidade, capturando o olhar de todos e o da Lua foi imediato e transformou a nossa noite gótica numa espécie de sonho subaquático (cheguei a lembrar de um clipe de Close to me).

Ficou claro ali, enquanto o som ecoava ampliando o efeito do wah-wah, que aquela presença misteriosa não se perderia na névoa da balada.

 

 

Exatamente ali o quarto acolheu uma terceira presença.

Nenhum anúncio precedeu a chegada, nem houve o sobressalto de um segredo revelado às pressas, mas a Lua agiu com uma calma serena, com a clareza de quem estava apenas expandindo os limites do nosso próprio santuário.

A porta abriu-se devagar e aquela guria magnética entrou com movimentos lentos e um olhar carregado de um silêncio cúmplice.

Sem nenhuma palavra que precisasse ser dita para se justificar, sentou-se no chão conosco, escorada na cama, no exato lugar onde eu costumava ficar.

A Lua não se esquivou nem tentou erguer as suas habituais cortinas de fumaça poética; apenas estendeu a mão para a recém-chegada, entrelaçou os dedos com os dela e, com a outra mão, me puxou calmamente para perto.

 

 

Aquele cafofo iluminado por uma luz roxa improvisada transformou a bissexualidade da Lua em algo natural.

Não se apresentou como um dilema ou uma crise, mas como uma verdade fluida e mansa.

Os corpos eafetos misturaram-se entre o cheiro de perfume e encartes, ao som do três-em-um, ignorando os rótulos que o resto do mundo usava para julgar.

A harmonia daquele arranjo parecia suspensa no tempo, mas o amadurecimento dos meses seguintes cobrou o seu preço, e a doçura compartilhada daquele inverno aos poucos decaiu para um distanciamento frio.

O álbum Disintegration acabou por substituir as guitarras psicodélicas, e a sua influência melancólica me fez compreender que o amor dela não se dividia: ele se isolava, deixando-me à margem enquanto ela se afastava quimicamente e espiritualmente de tudo.

 

 

Essa batalha eu já tinha perdido, e percebi isso claramente no fim de 1989, quando tentei resgatá-la daquele isolamento na Osvaldo Aranha.

Ela já não queria os meus dilemas de garoto, nem o calor das noites a três, nem ter seu afeto compartilhado.

Aquela última madrugada trouxe seus olhos fixos no vazio e aquele sorriso resignado, antes que ela sussurrasse a sua sentença: — Eu escolhi a Morte.

O meu coração congelou por um segundo, engolindo o peso literal daquela frase.

A crueza da realidade veio logo em seguida, num soco bem mais mundano e igualmente devastador. Bem capaz, que ela queria morrer.

A Lua estava apenas verbalizando a sua escolha afetiva: tinha escolhido ficar com a outra.

Refiro-me à guria sem nome que orbitava o nosso quarto e que, convenientemente, tinha o apelido de Morte.

 

Personagem de Sandman/DC

 

Saí daquele quarto sob o impacto de um descarte, sentindo a dor misturar-se com um ciúme fatalista.

Toda a mística que nos sustentara parecia agora um monte de cacos de vidro inúteis no chão da Osvaldo.

Eu estava caindo aos pedaços, Faith No More? Ok.

Entendi o recado mental, mas o mais estranho foi pensar em uma letra de uma música do Frank Jorge, que não havia feito sucesso (Ainda, diga-se de passagem), que por algum motivo dos infernos foi parar nas minhas mãos: "Amigo punk, escute só meu desabafo, a essa altura da manhã, já importa nosso bafo".

 

 

Caminhar sozinho pelas calçadas escuras do Bom Fim, sentindo o minuano cortar o rosto com aquele gosto amargo de uísque de garrafa de cerveja, me fez perceber que aqueles sussurros góticos sobre o tempo que se esvai estavam me destruindo; eu precisava acrescentar novos horizontes àquela melancolia.

O romantismo sombrio do BOB não servia para meu ser abandonado — ele fez parte de algo que moldou minha alma —, mas o inverno que começava em definitivo na minha vida exigia algo mais pesado, agressivo, cínico e visceral para processar esse caos congelado.

Eu não ia rasgar o meu passado, mas precisava de algo mais barulhento e cru que estivesse à altura do meu coração estilhaçado.

 

 

O delineador borrado escorria pelo rosto ali mesmo, onde limpei os olhos com a manga do casaco.

Era o fim de uma era, mas não o fim de quem eu era.

Deixei o cabelo cair desalinhado e, semanas depois, vesti a minha primeira camisa xadrez.

Ela não tinha as cores berrantes das praias americanas; era padronizada em linhas de preto, cinza e branco, um visual que carregava o luto da década que se despedia e a fúria urbana da que nascia.

Os anos 80 estavam morrendo, e eu estava prestes a renascer nas garagens da cidade, cheguei em casa e coloquei direto: Falling to Pieces do Faith No More, mas com a escuridão do The Cure eternamente costurada no peito.