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Um show. Uma história. Porto Alegre, 1987.

  • June 2, 2026
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Gilmar Rojas Dias
Super User
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Faziam alguns dias que eu tava aqui remoendo um trechinho da minha vida pregressa, depois do post do CarlosMX Sobre a Cultura Gótica ( queria ter feito antes, hehehe, quem sabe mais pra frente revisito a idéia ), e fiquei pensando em uma historia pessoal, e fiquei: contar, não contar, contar, não contar, contar, não contar, resolvi que contarei-a-á… com algumas adaptações. 

 

Porto Alegre - The Cure

Março de 1987. 

Eu tinha treze anos, uma idade em que a gente acha que sabe tudo, mas não sabe porra nenhuma. Só que aquela noite de sexta-feira, dia 20, mudou a minha vida. Porto Alegre tava numa ebulição do caralho com o fim da ditadura, a moçada fissurada em rock, mas para um guri nascido em 1974, a verdadeira revolução aconteceu na marra, na porta do Gigantinho.

Meus coroas jamais me deixariam ir. Então, o plano foi infalível: esperei eles dormirem e fui até o armário do meu pai. Peguei escondido uma capa de chuva preta de gabardine impermeável que ele tinha ganhado de um cliente e guardava como relíquia. O velho não fazia a menor ideia de que a capa era britânica, legítimo estilo inglês — mas eu sabia. Por baixo, eu vestia o meu maior orgulho: uma camiseta branca clássica do The Cure, daquelas bem baratas compradinhas nos camelôs do Centro de Porto Alegre, com a estampa meio torta, mas que para mim valia mais que ouro. Meti o gabardine por cima da camiseta e escapei pela janela.

Bem parecida… hehehehe​​​​

Dinheiro para o ingresso? Nenhum. Quem me garantiu a noite foi a Lua. Ela era beeem mais velha, mas demorei muito tempo para descobrir a idade real dela. A Lua tinha uma presença mística, etérea, dessas figuras que parecem flutuar pela noite de POA. Foi ela quem me apresentou o The Cure e, de quebra, me apresentou a própria vida.

Quando chegamos na frente do ginásio, o clima tava pesado, um mar de camisas pretas, fumaça e a maior pauleira. A Lua me olhou com aquele jeito enigmático e disse: "Te mexe, guri". Ela colou num dos caras da triagem e armou o maior fuzuê, gesticulando, berrando que tinham roubado o ingresso dela. No milésimo de segundo em que os seguranças se embrearam para conter aquela presença magnética, eu abaixei a cabeça, passei lotado por baixo da roleta e sumi no meio do povão. Meu coração parecia que ia sair pela boca, um misto de pavor de levar um teco dos seguranças com a adrenalina pura de ter conseguido. Eu tava dentro, caralho!

O Gigantinho virou um caldeirão de suor, laquê e delineador borrado. Logo no começo tirei o gabardine do meu pai porque aquele troço já tava me cozinhando vivo, amarrei na cintura e fiquei só com a minha camiseta branca de camelô. Senti uma mão puxar meu braço na escuridão da pista: era ela, rindo, com os olhos brilhando por termos conseguido.

 

A vibe daquela noite ficou cravada na minha memória, amarrada ao rastro da Lua a cada música:

 

Shake Dog Shake: 

 

A abertura foi um soco no estômago. Aquela bateria pesada, e os berros do Robert Smith, me deram um baque físico. Fiquei paralisado e a Lua colou o corpo nas minhas costas, segurando meus ombros para eu não ser esmagado pelo empurra-empurra. Senti o calor dela e entendi que o guri de treze anos tinha ficado lá fora.


Piggy In The Mirror & Play For Today: 

 

 

 

 

Que viagem! Em Play For Today, quando a galera começou a cantar a melodia do teclado em coro — aquele "ôôô" clássico —, a Lua pegou a minha mão direita e a levantou junto com a dela, no ritmo do público. Me subiu um arrepio na espinha; eu era um penetra, mas ali eu era parte daquela tribo, guiado por ela.

 

A Strange Day & Primary:

 

 

O clima ficou foda. O baixo estralado de Primary acelerou meu batimento. A Lua se posicionou na minha frente e começou a dançar de costas para mim, o cabelo desfiado dela roçando no meu rosto. Olhar para o palco por cima do ombro dela me dava um pavor bom, um troço magnético e proibido.

 

Kyoto Song & Charlotte Sometimes: 

 

 

Duas pauladas melancólicas. Em Charlotte, a fumaça de gelo seco cobriu a pista. A Lua se virou para mim; a luz vermelha do palco batia no rosto dela e vi que ela chorava em silêncio. Ela limpou uma lágrima, olhou bem nos meus olhos e segurou meu rosto por dois segundos. Senti uma angústia bonita, um troço adulto que eu nem sabia que existia em mim.

 

In Between Days & The Walk: 

 

 

O Gigantinho quase veio abaixo. A pista virou uma onda humana e a Lua começou a pular, me puxando junto. A gente saía do chão em sincronia, rindo feito loucos no maior alto-astral. Minha camiseta branca já tava colada no corpo, e a dela também. Eu saltava tão alto que parecia flutuar com ela naquele calorão.

 

A Night Like This & Push: 

 

 

Ouvir o Robert Smith mandando "I'm coming to find you" me fez esquecer todo o cagaço do mundo. Na intro de guitarra de Push, a Lua me deu um empurrão leve, me incentivando a ir mais perto da grade. Foi uma injeção de adrenalina pura, a maior sensação de liberdade da minha vida.

 

One Hundred Years & A Forest: 

 

 

A parte mais trevosa do show. A Forest foi uma catarse violenta. Aquela linha de baixo repetitiva me deixou hipnotizado. A Lua se aproximou e sussurrou a letra direto no meu ouvido: "Again and again and again...". A voz dela misturada com o eco do ginásio me deixou em transe total. O Gigantinho parecia uma caverna escura e só nós dois estávamos ali.

 

Sinking: 

Fechou o set principal. A galera deu uma estagnada, exausta. A Lua passou o braço pelo meu pescoço, me puxando para um abraço de lado, respirando fundo. Ficamos ali grogues, estasiados, compartilhando o mesmo ar e tentando recuperar o fôlego pro que vinha depois.

 

O BIS

Close To Me & Let's Go To Bed (Primeiro Bis): 

 

 

Quando eles voltaram, foi pra sacudir. O balanço dessas duas músicas botou a galera pra dançar de um jeito mais solto. A Lua começou a rebolar de um jeito leve, me puxando pela cintura da calça para eu perder a timidez e dançar com ela. Foi um alívio massa, uma cumplicidade moleca no meio de tanta densidade.

 

Six Different Ways & Three Imaginary Boys (Segundo Bis): 

 

 

A nostalgia bateu forte em Three Imaginary Boys. Olhei para a Lua sob a luz azulada e depois para mim. Me senti exatamente o "menino imaginário" da letra: invisível pro mundo, de penetra guiado pela Lua, mas absurdamente vivo.

 

Boys Don't Cry: 

Cara! Quando começou a intro desse som... A galera quase abafou o som das caixas. Foi o ápice. A Lua me puxou pelas duas mãos e começamos a girar e pular no mesmo lugar. Gritei a letra com os pulmões em frangalhos, olhando para ela, lavando a alma. Maluco também chora, e ali tava todo mundo chorando junto, unidos por aquele hino.

 

Faith: 

O final de tudo. Uma música arrastada, quase uma missa gótica. A Lua entrelaçou os dedos dela nos meus, bem apertado, enquanto o Robert Smith saía do palco e deixava só o baixo ecoando sozinho no breu. Não dissemos nenhuma palavra. O silêncio e o toque da mão dela eram a nossa própria profissão de fé.

 

Quando o show acabou, a noite ainda não tinha terminado para nós. Em vez de me mandar direto para casa, a Lua me levou até o cafofo dela — uma portinha tímida num prédio antigo do Centro. Entrar ali foi como cruzar um portal para outro mundo. O quarto dela era o templo definitivo de um fãzaço da banda e daquela cena dark/punk/gótica. Paredes cobertas de pôsteres rasgados do The Head on the Door, páginas da revista Bizz coladas com fita crepe, jornais com fotos do Siouxsie and the Banshees e do Bauhaus, e um cheiro forte de incenso de patchouli misturado com o laquê que ela usava no cabelo. Uma luz vermelha fraca e meio clandestina iluminava o ambiente, vinda de um abajur improvisado com um pano.

A gente mal conseguia falar por causa do zumbido nos ouvidos. Ela ligou o três-em-um num volume quase inaudível para não acordar os vizinhos, colocou o vinil do Seventeen Seconds para rodar e me serviu um gole de uma bebida barata qualquer. Nos sentamos no chão, escorados na cama. Ali, no silêncio daquela penumbra gótica, ela tirou os meus sapatos e me ajudou a limpar o delineador que tinha escorrido pelo meu rosto. Não teve malícia; foi uma intimidade crua, um acolhimento. Eu olhava para os discos dela, para as roupas pretas penduradas nas portas do armário e para o rosto dela, tão perto do meu. Naquele cafofo místico, cercado por tudo o que a cultura punk e gótica tinha de mais sagrado, eu tive a certeza de que nunca mais conseguiria voltar a ser um guri comum.

Voltei pra casa na madruga do dia 21, com os ouvidos zunindo, a camisa encharcada de suor dos outros e o gabardine inglês debaixo do braço. Consegui entrar de fininho no quarto sem acordar os velhos e pendurei a capa exatamente no mesmo lugar. Meu pai nunca soube que o casaco dele foi batizado no show mais importante da história da cidade. Eu podia ter entrado de penetra no Gigantinho, mas o The Cure — e a Lua — tinham entrado de vez na minha cabeça e no meu destino.

 

A Mídia :


No dia 20 de março de 1987, cerca de 20 mil pessoas abarrotavam o Gigantinho para a primeira de duas noites históricas, Porto Alegre recebia pela primeira vez a banda britânica The Cure, até hoje são lembradas pelos gaúchos e pelos brasileiros que assistiram aos shows daquela turnê: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Os shows em Porto Alegre foram tão antológicos, que fitas piratas com o áudio da apresentação eram vendidas nas lojas e bancas de discos de Londres meses depois à turnê.
Logo depois dos dois shows em Porto Alegre, já em São Paulo, Robert Smith disse numa entrevista coletiva sobre o publico gaúcho: "Eles são selvagens! (no bom sentido, claro!)" - POA.FM - https://www.facebook.com/share/p/182qNDtTrs/

 


Zero Hora (março de 1987)
Público agitado, banda estática

Para alguns, o melhor show de rock que Porto Alegre já viu. Para outros, The Cure é apenas uma banda de estúdio, que não funciona muito bem ao vivo. Mas todos insistiram em conferir de perto a mística banda inglesa. Como era de se esperar. Lol Tolhurst, Simon Gallup, Porl Thompson e Boris Williams, com o deus-demônio Robert Smith no centro, mantiveram-se estáticos o tempo todo. Mas Bob Smith, ao contrário do que se imaginava, interagiu com o público entre as músicas, dizendo coisas que praticamente ninguém entendia, mas que todos aplaudiam freneticamente.
O Gigantinho se transformou numa verdadeira panela de pressão. Lotado, vibrante. Centenas de pessoas, alimentadas pela esperança de conseguir um ingresso para o show, cercaram o ginásio mesmo com os ingressos esgotados desde quinta-feira. A polícia também teve muito trabalho para conter a multidão...
Os organizadores também tiveram problemas com a justiça. Um supervisor sentenciou a Poladian Produções após constatar a presença de várias crianças no ginásio. Mas nas arquibancadas e na pista, indiferentes a esses problemas, cerca de 14 mil pessoas dançaram o tempo todo, apertadas, vibrando a cada nova música tocada por Bob. O The Cure apresentou vinte e três canções, entre elas "Strange Day", "Kyoto Song", "Charlotte Sometimes", "The Walk", "A Night Like This", "100 Years", "Close To Me", "Give Me It" e "In Between Days" (a mais aplaudida). Cantaram também a polêmica "Killing An Arab" . Cinco vezes durante o show, o The Cure saiu do palco, fingindo que a apresentação havia terminado. Naturalmente, o público exigiu a volta do grupo, que foi feita de forma triunfal.
Bob Smith e seus amigos deixaram sua marca em Porto Alegre. E hoje, ainda mais. Uma dica: chegue cedo ao Gigantinho para evitar empurrões e conseguir os melhores lugares.
(Juarez Fonseca - Março/87)

3 comentários

CarlosMX
One Hit Wonder
  • One Hit Wonder
  • June 2, 2026

Ótima resenha!

E prometo que não tive a intenção de roubar sua ideia para o tema da Cultura Gótica  😄


Gilmar Rojas Dias
Super User
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Ótima resenha!

E prometo que não tive a intenção de roubar sua ideia para o tema da Cultura Gótica  😄

 

Tem espaço pra mais assunto, falando sobre o mesmo tema. 

Conhecimento de causa, não tem IA que supere. 😎

O que não pode é esquecer o meu “Curtir”… 


CarlosMX
One Hit Wonder
  • One Hit Wonder
  • June 2, 2026

Ótima resenha!

E prometo que não tive a intenção de roubar sua ideia para o tema da Cultura Gótica  😄

 

Tem espaço pra mais assunto, falando sobre o mesmo tema. 

Conhecimento de causa, não tem IA que supere. 😎

O que não pode é esquecer o meu “Curtir”… 


Amém bro. Hahaha